EXTERIOR SE ACALMA, MAS ATIVOS BRASILEIROS NÃO SE RECUPERAM

Cláudio Adilson

6/8/20263 min read

Na sexta-feira, 05/06, ocorreu quase uma tempestade perfeita nos mercados financeiros internacionais. O movimento começou com a divulgação da criação líquida de 172 mil vagas fora do setor agrícola dos Estados Unidos em maio — Nonfarm Payrolls, NFP —, muito acima das 85 mil esperadas pelos analistas. Além disso, os dados fracos dos meses anteriores foram revistos para cima (figura 1). Com isso, o mercado passou a precificar a ausência de espaço para cortes da taxa básica de juros norte-americana, a Fed Funds Rate (FFR), ao menos até o final de 2026.

Também houve intensificação das tensões geopolíticas, tanto no Oriente Médio, como no conflito na Ucrânia.

Como se isso não bastasse, as ações de tecnologia registraram perdas expressivas, suscitando dúvidas sobre a sustentabilidade das fortes altas acumuladas nesse setor. A faísca foi a fabricante de chips Broadcom. Apesar de ter divulgado bons resultados, suas perspectivas para receitas ligadas à IA ficaram abaixo do que o mercado havia embutido nos preços. Em um setor no qual as ações já vinham subindo de forma quase parabólica, uma pequena decepção foi suficiente para desencadear uma realização pesada, principalmente na Nasdaq, que registrou queda de 4,18% (figura 2).

Os efeitos sobre os ativos brasileiros foram perversos. O contrato de dólar futuro para julho (DOLN26) encerrou a semana passada cotado a R$ 5,20, com alta de 2% em apenas um pregão. O Ibovespa (IBOV), que já havia caído 2,22% na quarta-feira, véspera do feriado, perdeu mais 0,77% na sexta-feira.

Nesta segunda-feira, o temor de um início de correção mais forte nos preços dos ativos internacionais, principalmente no setor de tecnologia, não se confirmou. É verdade que as perdas da última sexta-feira não foram totalmente revertidas, mas os principais índices de ações nos Estados Unidos, quando este texto era redigido, mostravam estabilidade ou variações positivas: Dow Jones (+0,02%), S&P 500 (+0,58%) e Nasdaq (+1,12%). No Oriente Médio, apesar dos combates dos últimos dias, o petróleo Brent subia apenas 1,2%, para US$ 94,22 o barril.

Contudo, os ativos brasileiros não exibiam sinal de recuperação. Quase no final do pregão de hoje, o Ibovespa registrava queda de 0,27%, o real acumulava depreciação de 0,52% ante o dólar, e o contrato DOLN26 cotava o dólar para o vencimento em 1º de julho a R$ 5,213, alta de 0,25%.

Esse comportamento em sentido contrário ao observado no mercado financeiro internacional suscita a pergunta: embora as quedas da última sexta-feira tenham sido impulsionadas por eventos externos, há fatores domésticos que continuam pesando sobre os ativos brasileiros?

A nosso ver, a resposta é sim. De forma objetiva, destacamos os seguintes fatores:

1. À medida que nos aproximamos de outubro, as incertezas eleitorais começam a pesar mais sobre o desempenho dos ativos domésticos. As campanhas, as pesquisas e o noticiário político em geral tendem a elevar significativamente a volatilidade no mercado financeiro;

2. As expectativas para a inflação de 2026 vêm se deteriorando continuamente. De acordo com a pesquisa Focus, no início de março projetava-se alta de 3,91%; atualmente, a projeção é de 5,11%. Para 2027, no mesmo período, as projeções para o IPCA passaram de 3,80% para 4,03%, distanciando-se da meta de 3%;

3. O governo deve cumprir a meta oficial de resultado primário, mas vem tomando uma série de medidas de estímulo à demanda, principalmente por meio da expansão do crédito, em boa parte a taxas subsidiadas. Segundo estimativas do economista Samuel Pessôa, da FGV IBRE, esses estímulos, em comparação com 2025, somam aproximadamente 1% do PIB;

4. Diante desse quadro, é provável que o Banco Central entenda que praticamente não há espaço para quedas adicionais da taxa básica de juros (Selic);

5. Assim, a Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) tende a continuar subindo, devendo chegar a 84% do PIB ao final de 2027;

6. A visão da Vértice é que os mecanismos de transmissão da política monetária funcionam com baixa eficácia no Brasil. Sobre esse tema, sugerimos a leitura do artigo publicado hoje no jornal O Estado de S. Paulo por nosso diretor, Cláudio Adilson (clique aqui).

Em síntese, às incertezas externas somam-se problemas domésticos que tendem a produzir volatilidade e dificultar a recuperação dos preços dos ativos brasileiros.

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