SUPER QUARTA-FEIRA: MENSAGENS CONSERVADORAS DO FOMC E DO COPOM
Estados Unidos: Se tivéssemos de resumir em uma frase a decisão de ontem do Federal Open Market Committee (FOMC), o comitê de política monetária do Federal Reserve (Fed), incluindo o comunicado, a entrevista do novo presidente Kevin Warsh e as projeções dos participantes (dot plot), a mensagem seria: “não estamos considerando novas altas, mas também não há pressa para cortar juros”.
Os participantes do FOMC veem a inflação ainda elevada e acima da meta em 2026 e 2027. Esse quadro reflete uma combinação de fatores: tarifas de importação mais altas, atividade econômica resiliente, mercado de trabalho praticamente estável e choques de oferta em alguns preços, em especial energia. Além disso, seguem relevantes as incertezas em torno da trajetória do petróleo, apesar da assinatura do memorando de entendimento entre Estados Unidos e Irã.
Assim, o cenário mais provável para a taxa dos Fed Funds é de manutenção no atual patamar ao longo do restante de 2026. A entrevista de Kevin Warsh frustrou a expectativa de quem imaginava que o novo presidente do Fed seria mais sensível às pressões por afrouxamento monetário vindas da Casa Branca. Caso isso ocorresse, haveria risco relevante de perda de credibilidade institucional.
Nesse contexto, é compreensível que, no pregão de hoje, o dólar esteja se fortalecendo em relação às principais moedas e às divisas de países emergentes, incluindo o real.
Brasil: Como esperado por mais de 80% dos participantes do mercado, o Copom reduziu a Selic em 25 bps, para 14,25% ao ano. O comunicado, entretanto, teve tom hawkish. O Comitê reconheceu que a atividade econômica veio acima do esperado no início de 2026, o que deve ter contribuído para ampliar o hiato positivo do produto; que a inflação, inclusive as medidas de núcleo, segue em patamar elevado e distante da meta; e que houve deterioração adicional das expectativas, ampliando a desancoragem. Também demonstrou preocupação com estímulos de demanda, tanto por políticas creditícias quanto por expansão fiscal, que prejudicam a eficácia dos canais de transmissão da política monetária.
As projeções do modelo do Banco Central foram revistas para cima de forma relevante: para 2026, a estimativa passou de 4,6% na reunião de abril para 5,2% na reunião atual; para 2027, horizonte relevante da política monetária nesta decisão, subiu de 3,5% para 3,7%. O próprio Copom, porém, ressalvou que “os modelos de projeção, utilizando essas trajetórias da taxa básica entre seus condicionantes, estão sujeitos a incertezas acima das usuais na conjuntura atual”.
Em uma primeira leitura, esse conjunto de considerações parece tensionar a decisão de promover nova queda da Selic, ainda que de pequena magnitude. O Comitê, entretanto, argumentou que, nas simulações atuais, a trajetória necessária para assegurar a convergência da inflação à meta, no atual horizonte relevante, implicaria projeções abaixo da meta a partir do horizonte que passará a vigorar na próxima reunião. Na prática, o Copom passou a dar peso ao primeiro trimestre de 2028, aceitando que o IPCA de 2027 fique acima da meta de 3%, embora dentro do intervalo de tolerância.
Em nossa visão, essa abordagem é defensável, pois a taxa real de juros permanece em nível fortemente contracionista e acima da taxa neutra. Ao mesmo tempo, a combinação de projeções mais altas, expectativas desancoradas e comunicação cautelosa indica que, na avaliação unânime do Comitê, há pouco ou nenhum espaço para reduções adicionais da Selic em 2026.
Nosso cenário básico ainda contempla Selic terminal de 14% neste ciclo, mas aumentou a probabilidade de revisão para cima. Vamos aguardar a ata para compreender melhor a decisão de ontem, que já vem gerando divergência relevante entre os analistas.
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